• Ranielli Silva

QUAL "O VOO" QUE O ÁLCOOL PROPORCIONA?

Atualizado: 16 de Out de 2019

Em uma das mais belas passagens do Antigo Testamento da Bíblia (Gênesis 9.21) Noé, após o dilúvio, plantou vinha e fez o vinho. Fez uso da bebida a ponto de se embriagar. Reza a bíblia que Noé gritou, tirou a roupa e desmaiou. Momentos depois seu filho Cam o encontrou "tendo à mostra as suas vergonhas". Foi o primeiro relato que se tem conhecimento de um caso de embriaguez. Michelangelo, famoso pintor renascentista (1475-1564), se inspirou nesse episódio e pintou um belíssimo afresco, no teto da Capela Sistina, no Vaticano. Nota-se, assim, que não apenas o uso de álcool, mas também a sua embriaguez, são aspectos que acompanham a humanidade desde seus primórdios.


Era para ser um voo de rotina entre Orlando e Atlanta (O VOO, um filme de 2012). Porém, o voo SouthJet 227 já estava com seu destino traçado. Há uma grande turbulência na decolagem, superada pelo piloto William "Whip" Whitaker (vivido, pelo ator Denzel Washington). Depois de o avião ficar à altura de voo de cruzeiro, o copiloto Ken Vans (Brian Geraghty ) assume. William sai da cabine, fala aos passageiros e depois vai à copa e ingere uma bebida alcoólica com suco de laranja. Ele retorna ao seu assento e adormece. Subitamente, o copiloto nota uma grave perda de controle da aeronave, que inicia um mergulho irreversível. O Capitão Whip volta a si e começa a executar manobras impressionantes, inclusive colocando a aeronave a voar invertida. Com isso conseguiu deter o mergulho e fez com que o avião planasse. Dois motores ficam inoperantes e o capitão gira o avião em seu eixo longitudinal, colocando-o de volta na posição de voo normal. Devido à experiência de Whip a aeronave faz uma aterrissagem de emergência e grande parte dos passageiros se salva. Mas há 6 mortes, inclusive a comissária Katerina(Nadine Velazquez) "Trina" Márquez, amante de Whip. O capitão Whip tinha problemas com uso de cocaína e alcoolismo e no dia do acidente tinha consumido droga e bebidas alcoólicas. Depois do acidente Whip é afastado de suas atividades como piloto e é iniciada a investigação pelo órgão americano NTSB e Whip, que era tido como herói, passa a ser suspeito de ter pilotado sob efeito de substâncias psicotrópicas.


O filme o "O voo" com um dos mais brilhantes atores de cinema de todos os tempos, Denzel Washington, possui um talento impressionante para qualquer gênero, versátil, formidável ator. Não farei uma breve história da sua obra, pois isso merece um texto à parte. E o tema, especialmente o alcoolismo, é algo que me comove ao extremo. Nesse filme a cena que mais me chamou a atenção foi a que o piloto pede ajuda aos membros do sindicado para poder ir depor sóbrio e eles o internam em um apartamento de hotel, e coloca um segurança na porta, bastava uma noite sóbrio e falar a ultima mentira para ser considerado herói e seguir sua vida. Bastava negar que tinha ingerido álcool durante o voo e o tribunal o inocentaria, no entanto, o alcoolismo é uma dependência física e psicológica que simplesmente interrompe a vida das pessoas, os dependentes dessa doença, fruto de uma droga licita, são colocados a margem da sociedade e perdem a dignidade e o respeito ate dos seus familiares. Quando nosso personagem se encontra no apartamento ouve um ruído, uma porta que liga a outro apartamento balançando com o vento. Ele levanta-se da cama e vai ate a porta interna de onde vinha o ruído, percebe ali que ela não esta trancada e então tem acesso ao outro apartamento que tem um frigobar repleto de bebidas. Ele se agacha abre a porta do frigobar e em um primeiro momento resiste, depois volta e consome todo o estoque de bebidas disponíveis no apartamento. Segundo Ronaldo Laranjeira, psiquiatra, em entrevista ao Dr Drauzio Varella, o álcool age em vários sistemas químicos cerebrais. Sua primeira ação é sobre a química do controle da ansiedade, o sistema GABA. A pessoa fica mais relaxada, tende a filtrar os estímulos e por isso interage melhor com os outros. Se ela chegou à festa muito ansiosa, com medo de ser criticada ou de estabelecer relações, uma pequena dose de álcool irá relaxá-la um pouco e a tornará menos perceptiva em relação aos outros e mais em contato consigo mesma.

O álcool é uma substância complexa com ação farmacológica muito variada. A partir do momento em que o consumo aumenta, ele pode agir não só no sistema de relaxamento, mas em outros sistemas do cérebro. Dependendo da quantidade ingerida e da química cerebral de cada pessoa em particular, o relaxamento inicial pode dar lugar à sonolência ou a muita agressividade. O alcoolismo está fundamentalmente associado à ação farmacológica do álcool no cérebro. Quanto mais rápida for essa ação, maior a possibilidade de o efeito poderoso e reforçador do álcool desenvolver uma série de mudanças químicas no cérebro que produzirão a dependência. Isso vale para todas as drogas. Quanto mais rápida a absorção, maior o potencial de gerar dependência. Veja o exemplo do crack e da cocaína. O crack nada mais é do que pedras de cocaína fumadas num cachimbo. Como a fumaça em segundos atinge o cérebro, o crack causa muito mais dependência do que a cocaína consumida por via nasal. A mesma coisa acontece com o álcool. Se a pessoa beber um destilado de uma só vez, a absorção é rápida assim como é rápido o efeito, e o potencial desse padrão de consumo gerar dependência é muitas vezes maior do que o dos degustadores de vinho, que fazem do beber sua profissão, já que experimentam o vinho, analisam sua complexidade e jogam fora o álcool para evitar intoxicação. Por isso, o padrão de consumo de uma substância, às vezes, é mais importante do que a própria substância para provocar dependência, finalizou Ronaldo Laranjeira (coordenador da Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas na Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo e é PhD em Dependência Química na Inglaterra).


Nesse Filme "O Voo" na última cena, para quem nunca passou por isso , percebe-se claramente que o tratamento depende exclusivamente da pessoa aceitar que não ira conseguir sozinha se reabilitar. Perde-se a identidade inclusive seu único filho depois que seu pai (o piloto) fora condenado e preso vai te fazer uma visita e ele já reabilitado o recebe de forma carinhosa como se a vida tivesse lhe dado uma nova chance. Antes sempre teve em virtude da dependência uma relação conflituosa com o filho e a esposa e diz ao pai que esta fazendo uma pesquisa e o tema : “A pessoa mais incrível que eu nunca conheci” . E faz a seguinte pergunta: Pai quem é você? Ele responde: Filho nem eu mesmo sei. Por isso os 12 passos do AA (Associação Dos Alcoólatras Anônimos), são imprescindíveis para reabilitação de qualquer pessoa.


Os Doze Passos de Alcoólicos Anônimos consistem em um conjunto de princípios, espirituais em sua natureza que se praticados como um modo de vida, podem expulsar a compulsão pelo beber destrutivo e possibilitar que o indivíduo tenha uma vida integra, feliz e útil. O Sucesso do programa de A.A. deve-se ao fato de que quem não está bebendo tem uma excepcional facilidade de ajudar um bebedor problema. Quando um alcoólico recuperado pelos passos, relata seus problemas com a bebida, descreve como está sua sobriedade e o que encontraram em A.A. e abordam um provável ingressante a experimentar essa possibilidade. O centro desse programa sugerido é baseado em doze passos que estão descritos a seguir:

Primeiro Passo: Admitimos que éramos impotentes perante o álcool - que tínhamos perdido o domínio sobre nossas vidas.

Segundo Passo: Viemos a acreditar que um Poder Superior a nós mesmos poderia devolver-nos à sanidade.

Terceiro Passo: Decidimos entregar nossa vontade e nossa vida aos cuidados de Deus, na forma em que O concebíamos.

Quarto Passo: Fizemos minucioso e destemido inventário moral de nós mesmos.

Quinto Passo: Admitimos perante Deus, perante nós mesmos e perante outro ser humano, a natureza exata de falhas.

Sexto Passo: Prontificamo-nos inteiramente a deixar que Deus removesse todos esses defeitos de caráter.

Sétimo Passo: Humildemente rogamos a Ele que nos livrasse de nossas imperfeições. Oitavo Passo: Fizemos uma relação de todas as pessoas a quem tínhamos prejudicado e nos dispusemos a reparar os danos a elas causados.

Nono Passo: Fizemos reparações diretas dos danos causados a tais pessoas, sempre que possível, salvo quando fazê-las significasse prejudicá-las ou a outrem.

Décimo Passo: Continuamos fazendo o inventário pessoal e quando estávamos errados, nós o admitíamos prontamente.

Décimo Primeiro Passo: Procuramos, através da prece e da meditação, melhorar nosso contato consciente com Deus, na forma em que O concebíamos, rogando apenas o conhecimento de Sua vontade em relação a nós, e forças para realizar essa vontade. Décimo Segundo Passo: Tendo experimentado um despertar espiritual, graças a estes Passos, procuramos transmitir esta mensagem aos alcoólicos e praticar estes princípios em todas as nossas atividades.


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