• Ranielli Silva

O Encontro

Atualizado: 8 de Out de 2019

Vi aquele menino na calçada e naquela tarde algo me chamou atenção, vi também uma menina em seus braços, uma pretinha de pouca idade, enquanto um senhor tirava uma foto. Algo me fez parar para observa-los. Aquele pretinho magro sem camisa e a cueca a mostra me fez refletir, senti uma sensação estranha e prazerosa, uma incrível atração pela cena que parecia ter congelado. Naquela tarde a sensação térmica era de mais de 40° e o calor era quase que insuportável. Voltei para o hotel, lindo e maravilhoso que ficava as margens do rio e dos apartamentos amplos via a cidade vizinha e claro que as recordações afloraram como se fora arquivos sendo acessado a todo o momento, uma coisa simplesmente rejuvenescedora aquela paisagem me cegava de tão linda. Aquela ponte que unia aquelas duas cidades me fazia um bem enorme me dopava de dopamina. Chegou a noite e resolvi sair naquele lugar tão familiar, meus familiares tinha uma grande preocupação, pois tinha medo que eu não conseguisse voltar, uma vez que os sintomas da minha enfermidade estavam começando, eu passei a ter uns apagões e minha família não tinha confiança suficiente mais em minhas lembranças, o engraçado era que eu lembrava do passado e esquecia as coisas recentes.

A doença de Alzheimer é uma doença neurodegenerativa progressiva e fatal que se manifesta pela deterioração cognitiva e da memoria comprometimento progressivo das atividades da vida diária e uma variedade de sintomas neuropsiquiátricos e de alterações comportamentais. Engraçado é que me lembrava de minha trajetória profissional e da escola onde tinha estudado o primário e isso me fazia bem. Já com meus 55 ano de idade estava separado há uma década, meu casamento durou duas décadas não havia me dado a condição de ter filhos, pois minha ex esposa tinha infecções no colo do útero que impedia a gravidez, porque deixa o muco vaginal hostil, não permitindo a sobrevivência e a passagem do espermatozoide.

Lembro-me de meu pai um dia preocupado com a adoção de uma criança já que minha ex mulher não pode te los, certo dia ele me falou sobre a hereditariedade uma coisa chamada temperamento, ele um militar reformado pai de muitos filhos tinha medo daquilo que os geneticistas do comportamento descobriram a significativa influencia genética sobre o temperamento da criança incluindo dimensões de emocionalidade. Ele como seu linguajar peculiar dizia que a genética ou a hereditariedade tinha uma forte contribuição para o desenvolvimento humano, porem ele não sabia à época que não e determinante para caracterizar o comportamento do individuo, não podemos ignorar o fator ambiente que muitas vezes é mais intenso na formação psicológica que a hereditariedade. Confesso que me arrependo de não ter sido uma pai afetivo e sinto ate um sentimento de culpa.

Bem, a noite dei uma volta nessa incrível cidade e encontrei o garoto que tinha visto em uma das ruas de um dos bairros, ele estava em uma praça estranha e mal acabada e com uma péssima iluminação, mas movimentada devido existir uma igreja católica nas proximidades. Ele risonho rodeado de amigos e algo me chamava a atenção na sua fala, eu um senhor me via atraído pelo garoto que naquele momento havia saído da igreja. Ficava me perguntando seria os sintomas da doença que já estava me deixando confuso? Com tanta coisa para ver naquela cidade e na cidade vizinha. Por que voltei aquele bairro periférico? E o garoto por que me atraia tanto? Percebi que ele tinha uma certa liderança entre os amigos e na sua comunidade, mas tão jovem e aquela pretinha em seus braços seria sua irmã? Quando aquele senhor tirou aquela foto? Tinha uma força maior que me atraia, queria saber mais sobre aquele garoto.

Finalmente o celular toca, era meus familiares preocupados comigo e retornei ao hotel e saímos para jantar na cidade próxima, linda e moderna um verdadeiro oásis em pleno sertão, tão bela e limpa. Os hotéis, os prédios, uma cidade extremamente desenvolvida, já as pessoas não tinham estampadas em suas fisionomias a alegria e a gentiliza dos habitantes da outra cidade. Um jantar regado a um belo vinho produzido na própria região e o cardápio uma comida bem típica, carne de bode assada na brasa, uma carne maciça e saborosa com farofa molhada com tempero verde, uma delicia e acima de tudo uma carne saudável.

No dia seguinte fui ao mesmo bairro procurar o garoto, eu tinha consciência da minha doença e sabia que tinha pouco tempo. A doença de Alzheimer costuma evoluir para vários estágios de forma lenta e inexorável, ou seja, não há o que possa ser feito para barrar o avanço da doença. A partir do diagnostico a sobrevida media das pessoas acometidas por Alzheimer e de 8 a 10 anos.

Encontrei o garoto no futebol e logo após o jogo chamei sua atenção. Percebi que gesticulava muito, seu time havia perdido e parecia nervoso tinha na verdade a minha estatura, bem baixinho, magro e um jeito que achava familiar, não sabia seu nome, então fiz um elogio: garoto você joga bem. Ele então parou e abriu um largo sorriso, lhe disse que apesar da minha idade já tinha jogado muito futebol quando tinha a idade dele. Ele então revelou que tinha apenas 15 anos. Deixei o carro estacionado atrás da trave do campo de futebol e fui caminhando ao lado dele. Falou sobre seus irmãos, me disse que eram quatro, tinha mais três meninos e uma menina. A pretinha que vira em seus braços era a irmã caçula. Eu falei que em minha casa eram oito comigo e que eu era o mais Velho. Perguntei sobre a sensação de ser o primogênito, a responsabilidade pelo futuro da família já que eu percebera que se tratava de um garoto precoce e de muita maturidade e fomos conversando, paramos na praça onde ficava localizada a igreja e ele revelou a vontade se ser medico. Engraçado, lhe disse: eu também, na sua idade tinha essa mesma pretensão, mas não se concretizou. Falou sobre suas leituras e que gostava muito de Chico Buarque, em determinado momento me deu um branco, pois a cada afirmativa do garoto nos tornávamos mais próximos, tínhamos os mesmos gostos e sonhos, fizemos a mesmas leituras, como por exemplo, George Orwell e seus livros: “1984” e “ A Revolução dos Bichos”. O mundo começou a girar quando ele me falou que o primeiro livro que leu foi” O Menino do Dedo Verde”, eu percebi naquele momento que algo estava acontecendo ali e não havia uma explicação lógica. Imediatamente perguntei: você por acaso ganhou algum concurso literário? Ele respondeu balançando a cabeça de forma afirmativa. Seu pai é militar, afirmei. Ele disse: sim. Eu então parei o dialogo e já não tinha mais dúvidas que o nome da sua mãe era Maria e de seu pai José. O garoto estava diante dele mesmo com 55 anos de idade. Fiquei confuso, nós somos frutos das nossas lembranças e somos o resultado das nossas sinapses. Eu não me reconheci depois de 40 anos e o garoto não sabia o que estava por vir na sua vida. Nós apenas interpretamos nossas lembranças. É diferente de estar diante delas. Levantei-me do banco daquela praça e percebi que ainda sabemos muito pouco sobre nós mesmos. Vi aquele garoto repleto de sonhos sem saber o que o destino te reservava. Ele sem entender o que aconteceu ainda de chuteiras, meias de futebol, camisa no ombro viu afastar- me sem despedida...


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